terça-feira, 16 de novembro de 2010

Um amigo me pediu... – Dicas de amor de quem não ama mais.



No último fim de semana, revendo amigos que sobreviveram à minha personalidade destrutiva, fui surpreendido por um deles. Envolvido com as coisas do coração e sem saber o que fazer, ele pede ajuda a Um e Nenhum, o retrato do sofrimento, embora, assim como quase todos meus amigos próximos, ele não saiba quem sou.
Pra entendermos:


Este amigo, segundo o próprio, nunca esteve às voltas com um relacionamento normal. Desses que se começa com um "oi" e não com um "Qual o seu nome?" no dia seguinte. Ainda segundo ele eu tenho todos os atributos para aconselhá-lo. Os adjetivos a mim atribuídos fora retirados por pura modéstia (!!??) deste que vos escreve. Quando ele disse aquilo o tempo parou. Comecei a rever minhas desventuras e parei de ouvi-lo. Vi toda a minha vida amorosa passar diante dos meus olhos. Durou dois minutos! E na maior parte a imagem era embaçada.


Mesmo sabendo que isso não poderia dar certo, visto que todas as minhas experiências do tipo deram errado, aceitei aconselhar meu pobre amigo sem alternativas. Quer dizer, resolvi dizer meia dúzia de palavras que ele queria ouvir e não ser responsável por nada. À medida que ele contava sua nova história de amor, eu fui vendo que eu sabia exatamente o que fazer, já que eu estava de fora e não vivendo naquele estranho turbilhão que se sente quando está vivendo uma nova e nervosa comédia romântica. A coisa ficou ainda mais simples quando percebi que pra ele bastava ser exatamente como eu sou com a humanidade. Tento afastá-la, mas acabo atraindo, por que tenho essa necessidade de estar longe e os afasto. Como já disse, não adianta! Imaginei que na dose certa, minha seleção nada natural atrairia a pretensão do meu amigo, certamente, tão manipulável e amante da rejeição quanto o resto da egoísta humanidade.


Mantenha a distância exata:O ser humano é fascinado pela rejeição. É isso que o atrai. Sabe por que detestamos aquele amigo ou namorado(a) grudento (a)? Por que ele(a) está sempre perto e não temos tempo de fantasiar que está se divertindo mais em outras companhias. Por que não temos mais a preocupação de ser interessantes. Afinal, pra que ser interessante pra alguém que está sempre à disposição? Quanto mais distantes, mais a curiosidade desperta. Quanto mais calados, mais desejam nos ouvir. Já fui muito disponível, muito próximo e já se imagina o que aconteceu, não é? Precisamos ser interessantes todos os dias, mudar todos os dias, manter a curiosidade do outro. Imagina que coisa chata é chegar em casa todos os dias e ver você sentado (ou pior, deitado) no sofá sempre na mesma posição... Ir sempre para os mesmos lugares, pra fazer as mesmas coisas, ver as mesmas pessoas. É preciso ser diverso. Reinventar! Ser um eu diferente a cada dia. Parece complicado e talvez seja, já que nos acostumamos com as situações e é mais cômodo ser o mesmo eu todos os dias.


Seja sutil:Não vá direto ao sexo. É preciso demonstrar interesse pelo que o outro diz. Demonstrar interesse por coisas comuns cativa o outro. Ouça sempre! Espere sua vez de falar e faça sempre observações inteligentes sobre o que seu parceiro fala. Não atropele o discurso com uma coisa engraçadíssima que você acabou de lembrar. Embora seja engraçado. (Meu amigo é um piadista. rs...)
Comecei este discurso de "Guru do Amor" por brincadeira. Todo mundo sabe que sou avesso a essas coisas, mas de repente, percebi que ele me levava tão a sério que fiquei até meio envergonhado, por que, algumas coisas são quesitos básicos de educação e não de conquista. Mas acredito que uma bela dose de educação e refinamento deve conquistar mais alguém além de mim e prossegui.
O impressionante é que nesse mesmo dia, seguindo meus "ensinamentos", ele marcou o primeiro encontro. Foi aí que a coisa piorou pra mim!
O que devo fazer? Como me visto? O que eu digo primeiro? Pra onde vamos? O que fazemos depois? E no dia seguinte? Sobre o que vamos conversar? Todas essas perguntas (e mais algumas) foram feitas assim mesmo. Uma atrás da outra, sem pausa. Meu amigo estava nervoso. Fiquei nervoso, mas não demonstrei e simplesmente disse:


"Seja você mesmo!" – Clichê total, mas realmente apropriado. – E completei: "Se você não conseguir agradar sendo quem você é, imagine tendo que fingir que é outro!"
Quando ouço alguém dizer que seu namoro está indo mal por que o outro mudou, sempre penso que na verdade ele, na verdade, cansou de representar. Ou ainda que o namoro anda tão mal que não vale mais a pena. (Reinventar, lembram?) As pessoas amam a imagem que fazem de nós. Quando não correspondemos a esta imagem o outro tenta nos mudar e não conseguindo, fica frustrado e sofre. Do outro lado, quando tentamos ser quem se espera, uma hora cansamos e parecemos passar por uma mudança monstruosa e deixamos de ser interessantes. Todos sofrem! Somos egoístas! Amamos o que queremos amar. Amamos o que invertamos que o outro é. E justamente nesse momento que pomos tudo a perder. O "seja o que eu espero" encontra-se com o "sou o que você espera" e daí pro fundo do poço. Ninguém é a imagem exata da nossa vontade. Somos o que somos e não o que alguém sonhou.


Diante disso, o primeiro encontro aconteceu com tranqüilidade e nervosismo bem dosados.


No dia seguinte, recebo um telefonema bem cedinho. Logo depois de acordar. Um empolgado e alegre amigo me agradece pelas coisas que eu não sabia e ensinei pra ele. Fiquei contente. No começo, senti vontade de contar pra ele que eu sou Um e Nenhum e que não podia mais ajudar. Mas fiquei contente ao saber do resultado de nossa conversa. Tivemos muitas conversas antes do segundo encontro também. Soube que quando aconteceu o segundo foi menos tenso, como eu havia dito que seria, e ele continua seguindo as dicas daquele que não ama mais. Daquele que cansou de sentir. As dicas amorosas de Um e Nenhum. (Idéia pra outro blog?? Não!!!).

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