Ver o lindo e enorme sol amarelo do fim do dia novamente...
Caminhar pelo cais e ouvir do mar o barulho da água quebrando infinitamente...
Sentir o vento no rosto na beira da praia carregado de areia, impunemente.
Entrar em contato com tudo isso outra vez me fez ter um leve sorriso no rosto. Uma leve vontade de continuar de onde parei. Infelizmente essa vontade toda era a simples presença do passado. Eu tinha novamente aquela felicidade que dão as pequenas coisas. Eu tinha o pôr do sol, o mar, o vento... Era como se o que perdi estivesse lá também.
Vivi esses poucos momentos à luz como se estivesse em algum lugar do passado. E de fato estava, mas a fenda aberta no espaço-tempo não foi capaz de trazer de volta sequer por pouco aquele ser cuja ausência tornou-me definitivamente o que sou agora: Sozinho.
Nos dias que se seguem, a tristeza pesada, como nos primeiros dias de solidão, me acompanha silenciosa. Tenho lágrimas novamente. Lágrimas silenciosas, como minha tristeza e como... Eu.
Tenho a impressão de que essa dor nunca vai passar, mas sei que estou errado. Tudo passa. E isso é uma coisa que nunca vai mudar. “Essa sua pequena dor, seja ódio ou seja amor, vai passar” (Passerà - Aleandro Baldi/Bigazzi/M. Falagiani).
Depois de um passeio lindo cheio de clichês eu volto pra casa, consternado. Minha casa... O único amor que me restou. Não! Não é um amor pequeno. É o maior de todos. Mas deste tenho a certeza do não abandono. Estou certo de que apenas a morte um dia nos separará. E neste dia, na falta de um ou de outro, morreremos os dois.
Tenho caminhado pela vida sem rumo certo. Fico recolhido na maior parte do tempo para não ter que viver momentos lindos como os que trouxeram à tona a minha tristeza já tão calma. Para trazer à tona a dor que me triturava por dentro com um triturador bem silencioso.
Eu fui embora naquele dia com a certeza de que estava deixando meus momentos felizes para trás. Saí dali acreditando, ainda assim, que era o melhor a fazer. Saí e não olhei pra trás naquele momento, mas de verdade, é no passado que vivo desde o momento em que fechei a porta lentamente e chorei.
Vivo no passado sorridente, nas viagens sem destino, nos planos... Planos pro nosso futuro que não vai acontecer.
Quem me vê caminhando pelas ruas, não imagina jamais quem sou nem o vazio que me preenche. Guardo minha solidão pra mim e ponho minha melhor imitação de sorriso no rosto e me entrego ao mundo. Ninguém pode me ajudar e, portanto, por que ter pena de mim mesmo, ou esperar que os outros a tenham? Minha dor é minha e de vocês e de mais ninguém. Eu tive de ir embora, por que naquele dia, era o melhor pra todos. Minha decisão, minhas conseqüências.
Agora é hora de voltar a esta imitação de vida. O feito não pode ser desfeito. Precisamos encarar nossas vidas do jeito que são, por que nada é sempre do jeito que gostaríamos, mas podemos dar um jeito de suportar. Não é fácil, mas também não é tão difícil assim.
Espero ansioso pela queda desta prisão sem muros, espero pela liberdade perdida, pelo fim da tristeza e da angústia. Espero ansioso o dia de ser livre... Livre de mim.


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