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| O pensador - Auguste Rodin |
Uma vez eu disse que dias piores viriam. E eles sempre vêm.
Estranhamente, o que vivo hoje são dias vazios. Não sinto a devastadora dor e tampouco me animo para algo. Simplesmente vivo. Tenho a impressão de que a qualquer momento tudo será como antes e anseio por isso, mas me perco nas horas e nada muda. Há aqueles momentos em que me sinto interessado naquele novo pensamento... Mas... Ele foge! Sorridente, foge! E eu... Eu não persigo pensamentos. E o que será esse pensamento, então, senão a simples personificação da minha viciante solidão? Pensamentos são criados para entreter mentes ávidas por realidade. Penso, logo existo.
Enquanto volto para casa, me pergunto o que virá depois desse vazio. O motorista diz algo que eu não ouço. Eu digo “sim”. O que terá ele dito? Não me importo! Eu me ocupo contemplando a paisagem da cidade e imaginando como seria se fosse diferente. Se tudo fosse diferente pra mim. Se eu não fosse fruto do meu próprio afastamento. Olho os carros passando e algumas pessoas me olham sem me ver. Meu olhar é vago também, longo, para além, para dentro. Eu as encaro e elas fogem baixando suas cabeças. Perco o interesse. O motorista resmunga algo. Dou-lhe outro rápido e insípido “sim”. O trânsito está confuso! Procuro no carro algo que possa me distrair. O vazio é entediante! Não encontro nada além de uma pessoa. Eu tinha esquecido que no banco detrás comigo havia outro. Eu sorrio. Não mostro os dentes. Meu sorriso é pequeno e parece mais um esgar bem no início. Em troca recebo um aceno. Acho estranho uma pessoa acenar para outra dentro do mesmo carro, mas não digo nada a respeito. Penso em algo pra dizer. Algo que inicie uma conversa, mas uma buzina estridente e demorada me chama a atenção. Um ciclista de bermuda vermelha e camiseta branca atravessou na frente dos carros. Penso que ele quisesse morrer e imagino sua frustração misturada com o alívio de quem nem tinha tanta certeza do desejo da morte. Penso que meu pensamento é uma bobagem. Volto pra dentro de mim. Vejo meu estado estampado no reflexo do vidro da janela do carro quando um caminhão passa por nós. Olho pra baixo meio envergonhado por perceber que é visível e até palpável o que sinto. Continuo pensando numa forma de acabar com isso. O desejo me toca outra vez e lembro que há poucos dias este me fez sonhar. Só um sonho mesmo! Nada de suspiros e borboletas no estômago. Dormi e sonhei com o desejo que eu escondo de todos. Isso pode esperar. Afinal, neste momento, não sou capaz de me controlar. Tenho reações que me assustam e atitudes que me surpreendem. Como se alguém tomasse as decisões e soprasse no meu ouvido a fala e o tom em que deve ser dito. Lembro que gritei com duas pessoas sem razão, hoje. Não que elas fossem pessoas sem razão. Eu é que não tinha razão pra gritar com elas. Penso em loucura e em seguida penso que loucos não a cogitam. Sorrio aliviado. Mas só por dentro. Meu rosto continua impávido, pálido...
O carro parou.
Ele desce e agradece. Eu já tinha esquecido dele de novo. Dou-lhe em troca minha imitação de sorriso e a porta se fecha. Estamos em movimento novamente.
Estou tão cansado que penso em deitar no banco e dormir. Logo esqueço! Penso em fumar um cigarro. Quero parar para comprar um maço, mas... A vontade de fumar dura apenas dois minutos e não tenho esse tempo todo até esquecer que cigarros existem... Que carros existem... Que o mundo existe... Eu em fundo branco. Aquele carro e tudo a minha volta desaparecido. Eu e meus pensamentos viajamos sem veículos e pintamos o quadro como queremos, mas... Não há cor! Lembro que o branco é a união de todas as cores, mas não sei como isso pode me ajudar. Sorrio por dentro novamente achando graça por lembrar de algo assim no meio de um pensamento que beira a... SIREEEEENE! A sirene do carro do corpo de bombeiros tenta rasgar o trânsito e chegar a algum lugar que se desfaz em chamas. Reparo que não há como ele conseguir passar. Engano-me. Com uma manobra mágica que só os carros de bombeiros e as ambulâncias têm, ele passa e já vai lá na frente. Veloz como se as chamas fossem um imã... Imagino os bombeiros rezando para que quando eles cheguem o fogo já tenha se esvaído. Sempre imagino que, de verdade, eles não querem enfrentar o perigo.
Sinal vermelho.
Espetáculo de pobreza. Mendigos acrobatas. Pirofagia da fome. Um deles parece olhar pra mim e me acusar por estar do lado de dentro do carro. Olho pra ele como se não o visse, mas olho direto nos olhos. E assim sem sabermos um a dor do outro, o sinal abre, o espetáculo se dissipa e a paisagem vai ficando pra trás. Volto a me refestelar na minha solidão.
Penso que os bombeiros estavam correndo para apagar este espetáculo, mas encontraram o sinal verde e passaram direto.
Penso que a dor que sinto pode ser menor que a dessas pessoas que tem fome, mas egoistamente, em menos de cinco minutos, elas já caíram no vácuo do esquecimento e me preocupo novamente em encontrar uma forma de chegar a um lugar que não sei onde fica pra voltar a ser quem eu era.
Ah, como demora! Estou entediado, esgotado... Quero chegar a qualquer lugar. O carro parece andar em círculos, a paisagem se repete. Sinto-me sozinho, num trânsito cheio de gente. Penso de novo em deitar no banco do carro, fumar um cigarro, dar uma volta de bicicleta usando uma bermuda vermelha, pular da ponte... Pensamentos em turbilhão... o carro de bombeiros, o fogo, os artistas mendigantes do sinal, alguém no carro... Tinha alguém aqui?!... “Obrigado!” – lembro de alguém dizendo – Mais pensamentos... O dia inteiro passa pela minha cabeça numa velocidade absurda, meu rosto sempre igual, imóvel! Estou tonto, não consigo controlar meus pensamentos. É ruim! Sinto como se fosse vomitar a qualquer momento. Lembro que me tornei Um e Nenhum e isso dói um pouco mais. O motorista fala comigo de novo. Não quero responder. Eu sou Um e Nenhum! Não quero dizer outro “sim”. Ele fala de novo. Finjo que ele não existe, quem sabe ele desiste. Mas é inútil. Ele insiste! Irritado, eu permaneço de cabeça baixa. Não quero ouvi-lo. Quero que os pensamentos parem, finalmente. Quero esquecer o que está acontecendo comigo. Dias vazios. O motorista fala de novo. Quero bater nele e tenho medo de alguém tomar mais esta decisão por mim. Onde estão meus cigarros? Ah... Não os comprei! O motorista diz meu nome reticente. Passo a mão nos cabelos. Estou suado. Penso no trabalho de amanhã. Penso que não tenho tido tempo pra nada além de trabalhar e sofrer. Olho pro relógio no meu pulso. Está tarde! Olho pro motorista e ele está olhando pra trás. Está olhando pra mim e dizendo algo. Eu finalmente presto atenção e pergunto: O que foi???
Chegamos...!

Ótica bem detalhista da vida, simplesmente perfeito.
ResponderExcluir"Simplesmente perfeito." - Essa expressão me lembra uma pessoa querida. Obrigado, Sr. Anônimo. Sua opinião me enche de uma vontade ainda maior de continuar minha descrição insana da vida.
ExcluirNossa pude me sentir o proprio personagem, me sentir como se estivesse vivendo essas percepcões. Parabéns.
ResponderExcluirObrigado, Sr. Anônimo 2! Cada palavra de meus leitores a respeito de meus escritos é o combustível para a exposição da insanidade racional que tenho cá em mente.
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