sexta-feira, 22 de outubro de 2010

DEZ ANOS DE GUERRA


Depois de tantos anos eu ainda fujo de ti. Teu nome é outro hoje, mas a sensação que tenho é a mesma: derrota anunciada. Tu chegaste tão calmamente, rastejante
e hoje te refestelas em meu coração. Detestável sensação de dependência. É preciso fugir de tuas carícias rotas, de teus carinhos imprestáveis. Não quero
ser mais um nesta armadilha tola. Eu sairei ileso! Não adianta tentar me comprar com tuas promessas. Já ouvi todas elas e sei que o que transborda em brilhos
é seco em verdade.
Falsas expectativas!Quero estar certo para que minha batalha contra ti seja justificada. Não quero ter-te sob pena do sofrimento que já dura uma vida, fruto de nossos encontros pretéritos.Conheço-te de outros tempos. Somos inimigos de longa data. Tu és meu outro. Eu sou teu um. Eu te odeio, amor. Mudaste de nome e sob outra forma te apresentas, mas eu reconheço teu hálito doce, tua presença cálida e tua lascivia gélida.
Vivemos lutando um contra o outro. Eu por te querer demais te idealizo e sofro. Tu por assim, me quereres sofrendo, sempre te apresentas como não te quero, imperfeito. És o contrário de toda a minha vontade, o avesso do desejo. Minha aversão ao mundo se personifica em ti.
Estou agora refém de tuas manobras. Espero, impaciente por teu toque. Quero-te, mas não quero querer-te. Quero-te longe depois perto então longe...

Falso Amor...
Lembro-me que há dez anos perdi nossa primeira batalha e iniciei um processo que me tornou o que sou hoje. Sou Um e Nenhum por que me derrotaste no passado.
Tornei-me sensato, sorrateiro, sombrio, soturno... Há dez anos, quando nos enfrentamos pela primeira vez eu quis adiantar o tempo acreditando que em dez
anos, tu ficarias para trás. Cá estamos, dez anos depois,inimigos fieis.

É bem verdade que em teu atual ataque tens um aparato perigoso: Olhos profundos, cintilantes, cabelos dourados como o trigo, uma adorável maneira brejeira
de se expressar... Ah, e um abraço... Um abraço apertado e quente que me dá a sensação de que o mundo pode ruir ao nosso redor restando apenas a terra que
circunda nossos pés e ainda assim estaríamos bem. Ah, mentiroso Amor, por que me tratas assim? Por que não esqueces que existo? É meu coração
que queres? Então toma-o! Mata-me de pronto! Tudo acabado entre nós. Arranca-me a vida e lhe serei grato.Serei dos homens o mais feliz sem ti. Mas
mata-me agora. Mata-me logo para que eu não tenha tempo de apreciar-te, de modo que não me arrependerei. Não quero novamente ser teu escravo nem senhor.
Afasta-te de mim! És a minha vergonha. Eu que jurei jamais amar. Eu que não devo amar ninguém,perdido em batalhas contra este que ousa se instalar nas trincheiras do meu peito dolorido.
Não me darei por vencido. Não sucumbirei diante de tua beleza, diante de tua aparente servidão. Afastar-te-ei com força arrancando-me a carne se preciso for para apagar de mim as notas de teu cheiro.Seremos um do outro a tragédia. Leva-te pra longe de mim e esquece-me.
Vira-me as costas e sem tornar a ver-me esquecer-te-ás certamente. Se assim não quiseres,no momento que a ira me tome, sem pensar,escreverei com sangue
teu (nem tão) lindo nome.


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